segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Capítulo I - Apenas uma mulher

   Aquela casa a deprimia. A grama do jardim ameaçava crescer além do civilizadamente aceitável, e a cada vez que Lúcia olhava para fora da janela e piscava, parecia maior. As plantas também beiravam entre a satisfação e a sede, entre a existência e a inexistência de pragas, o ipê amarelo, entre deixar o jardim harmonioso por mais pouco tempo ou derrubar pela grama e pela calçada suas flores caídas, tingindo a entrada da casa azul com a cor natural da miséria.
   A chuva de dias, semanas e talvez mêses havia abandonado sob as beiras das janelas, a piedosa estatueta de São Francisco de Assis e os números 5 e 7 - que, nesta ordem, compunham a indicação de endereço na fachada da casa - um rastro que poderia ser acinzentado ou verde musgo escorrendo para indicar onde a umidade ficava mais tempo - e também a distância entre a data atual e a data da última limpeza ou pintura da fachada.
   Mas era linda, casa de bruxa é sempre assim: não há capacho de boas vindas. Ou o visitante é bem vindo, ou não o é, e a casa poderia tanto assustar um visitante indesejado com seu ar místico de semiabandono e sua cor azul profunda e suja como se tentasse ser camuflada entre o céu e o jardim decadente, quanto acolher o coração de quem a pudesse identificar como o lar de uma alma criativa ao notar a riqueza de detalhes: algumas pedras e cabos de incenso espalhados entre as plantas, pelo de gato acumulado no chão da garagem vazia e até mesmo desenhos estranhos do que pareciam ser sigilos circulares e triangulares desenhados a mão com lápis grafite em cantos das paredes e do chão de cimento queimado da garagem - que também ocultava um pouco do pó de giz branco de um desenho mais apagado do que nítido.
   A cabeça de Jano, deus dos portais e escolhas, que estava pendurada sobre a porta de madeira velha e fraca, encarava com olhos firmes quem quer que atravessasse a barreira entre o jardim e o interior e avisava: é um lugar único. A casa estará nas memórias doces e nos pesadelos de quem ousar explorar sua história. Afinal, era linda. Era linda e deprimente, como é a casa de uma bruxa.
   Lúcia era apenas uma mulher. Estava deitada no colchão que não respirava há meses, nos lençóis que não eram trocados a dias, entediada no corpo que não mexia um mindinho para além do cama-comida-higiene a que qualquer estudante universitária desempregada era fadada durante as longas e tediosas férias.
   Olhando para os cantos entre as paredes e o teto do quarto, era possível localizar os focos de infiltração que davam origem às grandes manchas de bolor sobre o papel de parede antigo. Lúcia preferia encontrar formas conhecidas entre as manchas a ter que arrancar o papel e limpar as paredes, arriscando uma crise na rinite alérgica.
   Assim como o resto da casa, o quarto tinha cheiro de naftalina. A madeira do guarda-roupas e do criado mudo era podre por dentro, desleixo de quem os deixara tomar chuva. Uma mesa simples, sem gaveta nem detalhes, sustentava uma mistura entre pilha de roupas, acessórios, material escolar e livros jogados, assim como a cadeira à frente. A parede do quarto era tomada por cartazes e pôsteres roubados de murais quando ninguém estava olhando, todos de significado raso e arte bonita.
   Lúcia era convicta de que na infância as amizades eram conveniência, sempre pífias e frágeis como os sentimentos que as crianças conseguem entender, e de que na idade adulta, seriam sólidas como concreto e compreensivas da condição errante do ser humano. Mas, nos desinteresses dos amigos de infância por seus gostos extravagantes, certas portas da compreensão e, até mesmo da comunicação foram se fechando e formando um abismo entre a sua opinião e a dos ex-colegas, e o sentimento de não pertencimento a lugar ou interesse nenhum compulsionava sua mente para qualquer assunto que desviasse seu pensamento da solidão. Tudo o que fazia, pesquisava, expressava, era também um desvio ao fato de que era uma pessoa triste.
   Os vinte anos eram a prova de que as únicas amizades seriam as poucas que aguentam os calos, e Lúcia era uma calejadora profissional. Não era um propósito ser deixada de lado por todas as pessoas a quem um dia admirou ou em quem um dia confiou, mas a busca desesperada e obsessiva por uma identidade, uma personalidade ou algo que a tornasse A Lúcia - e não UMA Lúcia - gerava conflitos a cada vez que se descobria não sendo isso ou aquilo. E as pessoas viravam as costas por motivos que até mesmo Hollywood mostraria que não são o que aparentam se algum esforço for feito para analisar a história por completo.
   Os vinte anos eram a face entre o medo e a aceitação de que Lúcia não seria bonita para sempre, e talvez essa história termine na solidão que sempre preencheu o tempo livre.
   Na rara existência de amigos, Lúcia gostava mais da paz e do silêncio. Afinal, se uma pessoa não se incomoda com nada na sua existência imperfeita, o silêncio é confortável e indica amizade e confiança. E quando se entediava do silêncio de si mesma - quando terminava de filosofar tudo o que já se conseguiu passar pela mente, Hollywood era previsível. Os enredos eram sempre cansados. Nada fugia da criação de uma situação, o cansaço dela, o exagero irônico e o fatal "deveria mudar sua vida, mas todo o mundo te acharia ridícula por ser fraca a ponto de se influenciar por um simples filme". E por isso levantar da cama para conquistar o mundo não valia o esforço. E também por isso o significado dos pôsteres na parede não era mais profundo que o gosto pela arte visual.
   E assim como os amigos, o que também se desconstruía da infância era culpa da família, tão frágil quanto as amizades porque era unida pelo sangue mais do que pela desconfiança,  e cada vez que um membro frágil da família se ia, deixando nada mais que a memória aos próximos, era confirmada a ideia de que a existência mudava o mundo em nada, e com o abandono do propósito, a certeza de que nunca um deus, poderoso e em pura compaixão ofertaria aos homens o legado de dar continuidade à própria miséria. Não havia deus que a faria levantar da cama animada para conquistar o mundo e desistir de contar as rachaduras nas paredes. poderia ter sido astronauta, escritora, médica, mas o mundo se move com a cegueira da fé no triunfo.
   Todas as áreas do conhecimento pareciam insuficientes para desviar a cabeça do pensamento no limbo entre o existir e o não existir. Não foram poucas as vezes em que pensou em tomar todos os remédios até que não precisasse acordar, nem as vezes em que desejou que o teto do quarto cedesse, esmagando-a para não ter que aceitar o julgamento póstumo que acompanha o pensamento popular sobre o suicídio, e, no fundo, Lúcia sabia que o que a incomodava não era a própria vida - milhões de sorrisos despreocupados mostravam diariamente que a busca pelo sentido existencial não é eterna nem necessária. Sabia que precisava de uma mudança, e não de um fim. E no estado de inércia em que se encontrava, nem mesmo o suicídio não valeria o esforço de levantar da cama.
   As amizades, a família, a crença, a vida e tudo o que um dia já foi concreto se desconstruía perante o ócio, e Lúcia sabia que era apenas uma mulher porque tudo de que tivera certeza se transformava em um vazio de dúvidas, todas as dúvidas menores que a de levantar ou não da cama.
   A casa que a deprimia tinha a fundação fraca desde quando era uma casa nova, e agora, qualquer carro que passasse pelo pacato trecho da rua fazia todas as paredes tremerem. E enquanto Lúcia encontrava uma mancha de bolor que se parecia com um pássaro, as paredes tremeram e tremeram e tremeram como se um carro nunca terminasse de passar pela rua.
   Foi o destino que fez a dúvida entre levantar ou não se resolver. Lúcia pulou da cama temerosa, vestiu a primeira roupa civilizável. Comeu qualquer coisa que suprisse a angústia e a pressa e abriu a porta velha que rangia baixo. A grama estava maior. A carreata do enterro terminava de passar, e Lúcia se frustrou. Até mesmo acordar havia sido em vão.
   Olhando para fora, a cidade era como a casa. Cruel na vastidão. Decadente, porém, charmosa. Aconchegante e deprimente. E como as marcas da chuva na fachada de casa, também escorriam outdoors descaracterizados, e como os desenhos, pixações incompreensíveis, e como o ar místico, a magia do novo, inexplorado e desconhecido. Mas o conforto era mais seguro. Os antidepressivos eram além da conta, mas Lúcia tremia mais pelo medo de encarar a vida que pela convulsão, e a cor indefinida do bolor das paredes tomou conta da visão e a sensação que deveria se chamar alívio era um desespero tão apertado e desconfortável que não possuía nem o próprio corpo para roer as unhas.

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